Foto: arquivo pessoal
A verdade é que ensaiei por dias o discurso de amor que te repito quase que diariamente, ainda que só em pensamento. Rabisquei nossas lembranças em diversos papéis, esperando pelas lágrimas que sempre aparecem quando recordo nossos dias de caminhadas na areia, mas desta vez elas não vieram.
Recorri aos arquivos da memória e dos álbuns de família, pra ter certeza de que não esqueci nenhum detalhe teu — como se te esquecer fosse possível. Tuas mãos firmes e quentes que sempre espantavam minhas dores de menina, teu peito escondido na camisa de algodão entreaberta — refúgio de todo mal que me tirava o sono e a paz —, teus olhos sempre brilhantes e as tuas sobrancelhas grossas — que herdei com orgulho.
Nada. Nem uma gota caiu, assim como palavra alguma ousou sair pelos meus dedos. Nada fazia sentido ao tentar te homenagear junto com o resto do mundo. Então desisti. Deixei pra lá. Fui buscar paz n'outro lugar e, ironicamente, na última noite você estava lá. A lua pairava no céu, acompanhada de uma única estrela que brilhava tanto quanto. Por um segundo pude ver a tua escada, construída com amor e fé. Pude ouvir tua voz me cantarolando até o sono aparecer. Pude te sentir pertinho, como sempre e como nunca antes.
Voltei de viagem em paz, sem lembrar o motivo do tal feriado, até que uma mensagem perdida nas notificações me lembrou do dia em que a nação tira para lembrar do que partiram, mas já não quis mais relembrar ou escrever sobre os tempos que se foram. Não sentia mais vontade de chorar tua partida ou pensar em tudo que poderíamos ter vivido, não fosse teu curto tempo destinado a me acompanhar.
Lá pro fim do dia eu, finalmente, entendi, meu velho. O dia de finados foi feito para todos aqueles que chegaram ao fim, que completaram sua existência e deixaram de existir, mas com você é diferente. Com você não teve fim. Uma criança linda e iluminada, que a vida colocou no meu caminho, me ensinou: "Ninguém acaba, continua..."
É isso. Você não acabou, continuará para sempre eterno em mim. Em forma de amor.
♥
"Dos nossos planos é que tenho mais saudade
Quando olhávamos juntos na mesma direção.
Aonde está você agora, além de aqui dentro de mim?"
Legião Urbana
Quando olhávamos juntos na mesma direção.
Aonde está você agora, além de aqui dentro de mim?"
Legião Urbana









Jesus do céu..Ai Gisa.. nem sei o que te dizer, olha. Mas esse texto foi um dos mais lindos que já li. Tanto amor em cada detalhe. Ai gente..
ResponderExcluir<3
Que delícia. Que feliz saber disso, Ma. Muito obrigada pelo carinho de sempre com meus escritos, viu?
ExcluirQue coisa linda Gi, fiquei emocionada lendo teu texto.Porque poeta só é poeta mesmo é na dor, não é assim? Sem dúvidas, aqueles a quem amamos e se vão antes de nós, sempre continuam de alguma maneira, seja lá na nova morada ou aqui no peito da gente, isso, ninguém leva....beijos e um abraço apertado pra ti!
ResponderExcluirNão há dor que não possa ser (d)escrita, não é mesmo? <3 Obrigada pelas visitas, pelo carinho de sempre e pela compreensão. ME senti abraçadíssima, como sempre.
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